A Privatização que não passa no congresso

Venda dos ativos no valor de R$ 1,3 bilhões pouco reduziu o endividamento da Empresa

O presidente da Eletrobras, Wilson Pinto Junior, nunca escondeu seu projeto de diminuição do Sistema Eletrobras no setor elétrico brasileiro. Somente  no mês de maio, pelo menos duas SPE’s foram vendidas (a geradora Mangue Seco 2 e a Transmissora de Energia TDG).

A venda de ativos constou nas iniciativas estratégicas já no primeiro Plano Diretor de Negócios e Gestão (PDNG 2017-2021) da gestão Pinto Junior elaborado ao fim de 2016. A justificativa, muito conhecida, era de que se pretendia diminuir o endividamento da empresa tendo como meta a diminuição do indicador dívida líquida/Ebitda. De acordo com o documento, esta iniciativa estratégica seria implementada através da venda de SPE’s de geração e transmissão em controle das subsidiárias da Eletrobras para a Holding e a venda destes ativos para terceiros.

Nesse contexto, em 22/05/2017, conforme publicação no diário oficial, a Eletrobras contratou o BTG Pactual para prestar serviços de consultoria especializada em suporte a seu programa de desinvestimentos. O contrato com o BTG Pactual foi fechado sem licitação (fonte: globo.com). É sempre bom lembramos que o atual ministro da Economia foi sócio fundador do BTG Pactual.

O programa de desinvestimentos, elaborado em 2017 e levado a leilão em 27/11/2018, colocou a venda 71 SPE’s de geração e transmissão de energia, com preço mínimo estipulado em R$ 3,1 bilhões. Ao fim do leilão, a Eletrobras vendeu 61% de todos os empreendimentos arrecadando R$ 1,3 bilhões, ou seja, 42% do total pretendido.

E qual foi o impacto sobre o endividamento da Eletrobras? Em 2018 houve um crescimento expressivo da dívida bruta da Eletrobras. Esse aumento tem relação com a privatização da Amazonas Distribuidora. Nesse processo, a Eletrobras assumiu a dívida de sua subsidiária ampliando seu endividamento. Assim, fica claro que a venda dos ativos no valor de R$ 1,3 bilhões pouco reduziu o endividamento da Empresa

Já o indicador que mede o nível de endividamento da Empresa considerando sua capacidade para honrar tais dívidas, dívida líquida/Ebitda, apresenta uma melhora constante a partir de 2016, alcançando índice de 1,6 em 2019, como se pode observar no gráfico seguinte.

A melhora no indicador não tem relação com o endividamento da Eletrobras, mas sim com a melhora do potencial de geração de caixa da Eletrobras (Ebitda gerencial), principalmente em 2018 e 2019.

Essa melhora nos dois últimos anos teve forte influência das receitas das indenizações das concessões renovadas de transmissão (RBSE) e geração (reconhecimento da GAG Melhoria), ou seja, a melhora pouco teve relação com a gestão de Wilson Pinto Junior, ao contrário de seu discurso, uma vez que nesse período não foram observadas nenhuma ação para a geração de novas receitas para a Empresa, pelo contrário, a insistência na venda das participações das SPE’s tem afetado negativamente o caixa da Eletrobras, ao reduzir o recebimento de dividendos.

Portanto, os dados demonstram que a venda das participações em ativos de geração e transmissão (core business da empresa) do Sistema Eletrobras não apresenta efeito significativo para redução do seu endividamento, o que comprova mais uma vez a falácia do discurso de Wilson Pinto Junior.

Com a relação dívida líquida/Ebitda em 1,6 e com um caixa de R$ 10 bilhões, a Eletrobras comprova que está pronta para reassumir seu papel estratégico para a sociedade brasileira e auxiliar a retomada de investimentos em infraestrutura no Brasil neste período tão delicado que o país está passando. Os reflexos da crise provocada pela pandemia do coronavírus trarão fortes impactos sobre a capacidade de investimento do setor privado.

Fica claro assim, que Pinto Junior entrou na Eletrobras com a missão de transferi-la para o setor privado a qualquer custo.

Prova cabal é seu discurso em defesa do projeto de privatização na atual conjuntura, em que se espera a maior retração da atividade econômica da história da economia brasileira e, consequentemente, queda dos preços dos ativos. Ou seja, para o Sr. Pinto Junior vender a Eletrobras na bacia das almas é um bom negócio.

Curiosamente, para o dono da 3G, Paulo Lemann, a crise da pandemia do coronavírus traz oportunidades, conforme declarou em recente entrevista ao Estadão.

Será que ele se refere à Eletrobras?

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